Liderança Feminina Precisa de Proteção

Liderança Feminina Precisa de Proteção

Por Ana Beatriz Prudente Alckmin

A presença de mulheres em cargos de liderança dentro das organizações brasileiras representa, sem dúvida, um avanço institucional e social. No entanto, há uma realidade que ainda é pouco discutida com a profundidade necessária: ocupar uma posição de poder não significa estar plenamente protegida dentro das estruturas organizacionais. Muitas mulheres que chegam a cargos de diretoria, presidência, vice-presidência ou conselhos administrativos continuam expostas a formas sutis, e por vezes silenciosas, de violência de gênero que fragilizam sua atuação profissional, desgastam emocionalmente suas trajetórias e dificultam a consolidação de lideranças femininas duradouras.

O debate sobre liderança feminina não pode se limitar à celebração simbólica da presença de mulheres em espaços historicamente masculinos. A verdadeira transformação institucional exige um compromisso permanente com a proteção, o acolhimento e a
sustentação dessas lideranças. Isso porque o machismo estrutural não desaparece quando uma mulher alcança uma posição de poder. Muitas vezes, ele apenas se torna mais sofisticado, mais silencioso e mais difícil de ser identificado.

As violências sofridas por mulheres em posições de liderança raramente acontecem de forma explícita. Elas aparecem em interrupções constantes durante reuniões, na deslegitimação intelectual de suas opiniões, na cobrança excessiva por resultados, na
necessidade permanente de provar competência, na exclusão informal de círculos estratégicos de decisão e até mesmo no isolamento institucional. Em muitos ambientes corporativos e associativos, mulheres líderes são submetidas a um padrão de vigilância e cobrança que não é aplicado aos homens na mesma posição.

Pesquisas internacionais e nacionais já demonstram que a desigualdade de gênero dentro das organizações permanece profunda. No Brasil, segundo a Pesquisa Panorama Mulheres 2025, realizada pelo Instituto Talenses Group em parceria com o Insper, apenas
17,4% das empresas analisadas possuem mulheres na presidência executiva. O levantamento também aponta que mais da metade dos conselhos administrativos das empresas pesquisadas não possui sequer uma mulher entre seus membros. O dado revela uma contradição importante: embora o discurso institucional sobre diversidade tenha se tornado mais frequente, a presença feminina nos espaços de maior poder decisório continua extremamente reduzida. E, quando essas mulheres conseguem ocupar posições estratégicas, frequentemente encontram estruturas ainda pouco preparadas para protegê las das dinâmicas de violência institucional e discriminação de gênero.

Segundo dados repercutidos a partir de indicadores do IBGE, as mulheres ocupam cerca de 39% dos cargos de liderança no Brasil, número que ainda está distante da paridade, especialmente quando se analisam os cargos mais altos das organizações. Já
entre as empresas listadas na bolsa brasileira, muitas ainda não possuem nenhuma mulher na diretoria estatutária ou em conselhos de administração.

Essa fragilidade estrutural se intensifica quando se observa o recorte racial. Mulheres negras, indígenas e periféricas permanecem quase invisíveis nos espaços de comando. A própria Pesquisa Panorama Mulheres 2025 demonstra que aproximadamente
90% das presidências corporativas continuam concentradas em pessoas brancas.

Diante desse cenário, torna se essencial compreender que políticas de inclusão sem mecanismos de proteção institucional são insuficientes. Não basta promover mulheres para cargos de destaque sem criar ambientes organizacionais seguros para que elas exerçam plenamente sua liderança. A proteção institucional não diminui a potência dessas mulheres. Ao contrário, fortalece suas condições de atuação.

Criar redes de apoio dentro das organizações é uma necessidade estratégica e ética. Isso inclui canais seguros de denúncia, políticas claras contra assédio moral e violência de gênero, acompanhamento psicológico institucional, mediação de conflitos,
formação continuada sobre igualdade de gênero e mecanismos transparentes de governança. Também significa construir culturas organizacionais onde mulheres líderes não sejam tratadas como exceção, mas como parte legítima e natural dos espaços de decisão.

Há ainda um aspecto frequentemente ignorado: a exaustão emocional produzida pelo isolamento feminino em ambientes majoritariamente masculinos. Muitas líderes relatam a sensação de precisar estar constantemente em estado de alerta, administrando não apenas suas responsabilidades profissionais, mas também tensões relacionadas à percepção de sua autoridade.

Estudos acadêmicos internacionais apontam que mulheres em ambientes corporativos frequentemente enfrentam fenômenos como a necessidade contínua de reafirmar competência, o chamado teto de vidro e formas de sexismo benevolente e hostil que impactam diretamente sua permanência nos cargos.

Nesse contexto, proteger mulheres em posição de liderança não é um gesto de fragilidade institucional. É um compromisso com a saúde democrática das organizações. Organizações que desejam ser modernas, sustentáveis e verdadeiramente comprometidas
com diversidade precisam compreender que representatividade sem suporte concreto produz desgaste, adoecimento e evasão feminina dos espaços de poder.

O fortalecimento da liderança feminina exige mais do que discursos comemorativos em datas simbólicas. Exige coragem institucional para enfrentar práticas silenciosas de exclusão, rever estruturas de poder historicamente masculinizadas e garantir que mulheres possam liderar sem medo, sem isolamento e sem violência. A construção de organizações mais justas passa inevitavelmente pela proteção das mulheres que ocupam seus espaços de decisão. Porque promover mulheres é importante. Mas sustentar, proteger e garantir a permanência dessas lideranças é o que realmente transforma instituições.

Ana Beatriz Prudente Alckmin é judia, pedagoga pela Universidade de São Paulo, diretora de Educação da B’nai B’rith São Paulo, presidente da Fraternidade Judaica de Alunos da USP e presidente do Zerah Platform. Atua como embaixadora do Me Too Brasil para a comunidade judaica e para pautas climáticas, além de embaixadora da African Jewish Alliance na América Latina. Recentemente eleita para ser representante da comunidade judaica no COMPLIR, órgão municipal que promove a defesa da liberdade religiosa em São Paulo, pesquisadora de Inteligência Artificial na ESALQ-USP, com atuação voltada à educação, inovação e impacto social. Autora do livro “Ela, Sua Gata e Tel Aviv”.

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